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A Quem Pertence a Nossa Fidelidade?

Tive hoje uma das piores noites da minha vida, passando boa parte dela tremendo e com vontade de chorar, embora já não houvesse lágrimas para derramar. Não sei se foi ansiedade, desgosto ou frustração. Sei apenas que a sensação de impunidade é gritante e que, entre os dois corruptos, o Brasil escolheu o pior.

É fato que, entre as diversas opções que tínhamos, escolhemos as duas piores para governar o país. Diante disso, questiono-me se esse resultado não seria uma forma de Deus escancarar diante de nós que Ele não compactua com a idolatria, principalmente quando ela parte de seu próprio povo. Dói não compreender por que o outro lado não parece ser corrigido da mesma maneira, mas talvez isso aconteça justamente por amor, já que somos o seu povo, enquanto os outros já fazem parte do mundo.

Em meio a toda essa decepção, deparo-me com inúmeros amigos publicando versículos e lições de moral sobre o bolsonarismo. Eles estão corretos em suas críticas, pois é visível como nos tornamos idólatras de uma personalidade política, passando a tolerar a iniquidade e a corrupção. Entretanto, algumas dessas mesmas pessoas também permanecem presas à idolatria política, defendendo suas próprias convicções como se estivessem certas. Criticamos a idolatria do outro, mas nem sempre somos capazes de reconhecer aquela que nós mesmos cultivamos.

Tudo tem o seu tempo, e talvez este seja o momento de sermos advertidos e restaurados por Deus. Israel, em diversos momentos de sua história, foi subjugado por povos estrangeiros justamente por ter se afastado do Senhor. Penso que, entre os vários motivos que nos levaram à situação atual, nossa atuação como Igreja merece uma reflexão profunda, pois podemos estar entristecendo o coração de Deus.

Talvez, no futuro, chegue o momento de Deus advertir aqueles que hoje parecem prosperar sem prestar contas de suas ações. Contudo, isso não nos diz respeito, pois a justiça e a vingança pertencem exclusivamente ao Senhor, que as exerce de maneira perfeita. O ódio que cultivamos em nosso coração contra nossos próprios irmãos, embora muitas vezes motivado por atitudes questionáveis, diz muito mais sobre nós mesmos. Afinal, como podemos julgar o próximo enquanto temos uma trave em nosso próprio olho?

Hoje, enquanto lia a Bíblia, questionei a Deus justamente por permitir que essa situação acontecesse. Foi então que me deparei com Neemias 6, que narra os acontecimentos relacionados à reconstrução dos muros de Jerusalém. Em determinado momento, Neemias é instigado a pecar por uma razão aparentemente nobre. Acontece que nenhuma razão é nobre o suficiente para justificar nosso afastamento de Deus. Ciente disso, Neemias orou e confiou no Senhor, até que a construção fosse concluída e seus inimigos fossem frustrados.

É interessante observar que Tobias, um de seus opositores, possuía influência política e mantinha relações com pessoas importantes do reino. Mesmo utilizando sua influência, não conseguiu impedir a conclusão da obra. Essa passagem me fez refletir sobre como nos esquecemos de que o cumprimento dos propósitos de Deus não depende do poder ou da influência dos homens.

Onde nós, como Igreja, nos perdemos a ponto de defender um candidato com unhas e dentes simplesmente por considerá-lo menos corrupto do que o adversário? Esquecemos que nosso Deus é santo e que não podemos tratar o pecado como algo aceitável apenas porque parece favorecer nossos interesses? Essa leitura veio como um tapa na minha cara, pois me fez perceber que nem sempre estamos confiando na ação de Deus. Em vez disso, tentamos encontrar soluções entre nós mesmos, afastando-nos do verdadeiro caminho e entrando em atalhos criados pelo homem.

Talvez seja por isso que Deus tenha permitido que situações como essa aconteçam, concedendo aos ímpios a vitória que tanto nos causa indignação. Afinal, sua Igreja, que deveria permanecer firme exclusivamente nEle, está ocupada demais apoiando o chamado “mal menor” em seu nome. Malditos hipócritas nos tornamos! Assim como o povo de Israel, precisamos reconhecer que o Senhor é o único Deus e não divide sua glória com ninguém.

Ao leitor, digo que temos um árduo caminho pela frente. As projeções econômicas apontam para uma dívida pública que pode se aproximar cada vez mais de 100% do PIB, o que levanta preocupações sobre as contas públicas e o custo de vida. Além disso, as dificuldades orçamentárias para sustentar as políticas públicas nos próximos anos podem resultar em novos ajustes fiscais e aumento da carga tributária. Diante desse cenário, não podemos ignorar as dificuldades que virão, tampouco deixar de cobrar responsabilidade daqueles que nos governam.

Saímos dessa eleição desmoralizados e receosos, mas com uma certeza: nosso caminho não é consertar um mundo que já está condenado e sob o domínio dos ímpios, mas viver pela graça de Cristo Jesus e retornar à sua presença, onde seremos glorificados com Ele. O próprio Cristo não veio para nos libertar da tirania de governos e impérios terrenos, mas para nos libertar do poder do pecado. Nossa esperança, portanto, não pode estar depositada em qualquer autoridade ou projeto político, mas naquele que verdadeiramente nos salva.

Termino esta reflexão desejando a você uma fé pautada nas Escrituras e uma confiança genuína na soberania de Deus, reconhecendo que tudo o que acontece está debaixo de sua providência. Que possamos nos tornar cada dia mais parecidos com Cristo, e não com qualquer autoridade ou personalidade política. Continuemos firmes em nosso propósito, cobrando responsabilidade dos políticos, mas, principalmente, buscando nos assemelhar à pessoa de Cristo.

Que o Senhor nos conceda sabedoria para discernir os caminhos que temos escolhido, humildade para reconhecer nossos próprios pecados e firmeza para permanecermos fiéis à sua Palavra, mesmo quando o mundo parece seguir na direção contrária.


Parque Municipal Arthur Thomas, Londrina (PR) — fotografia autoral.



Comentários

  1. Parabéns pela iniciativa, pelo texto!
    Assino em baixo, plenamente de acordo.

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